No fundo, os azuis e brancos garantiram que, independentemente de tudo, têm sempre um valor de 50 milhões de euros encaminhado, previsivelmente em 2027, que até pode subir se o jogador valorizar ao longo dos tempos em Itália e, mediante acordo com a Roma, existir uma alienação de parte do passe a outro clube. Apresentado na quarta-feira, ficando com a camisola 86, Mora tornar-se-á a maior compra de sempre da Roma se o clube vier a pagar os tais 50 milhões de euros.
Na formação do FC Porto desde 2016, Mora cedo foi encarado como um atleta tecnicamente acima da média. Os cinco golos no caminho até à final perdida no Europeu de sub-17, em 2024, deram-lhe um mediatismo que Vítor Bruno e Martin Anselmi (ex-técnicos do FC Porto) não negaram, conferindo-lhe espaço no plantel em 2024/25, com somente 17 anos. Nessa temporada, fez 11 golos em 35 jogos, manteve o FC Porto à tona em muitos momentos, alinhando perto de Samu no ataque. Tornou-se o menino querido dos adeptos portistas e a presença na convocatória da Liga das Nações que Portugal viria a vencer não espantou ninguém. O talento de Mora é indiscutível, mas com Francesco Farioli no comando técnico dos azuis e brancos a afirmação não surgiu, em mais um exemplo clássico de quando a fixação plena de um jovem promissor no clube esbarra na visão tática do treinador.
Para Mora, a sensação de não contar como gostaria para Farioli ganhou corpo rapidamente. Sabe o Diário de Notícias que o atleta tentou completar o 12.º ano em formação modular, recorrendo a entidades formativas para cumprir as exigências de modo a ter um contrato de trabalho – isto já no final do verão de 2025. Tinha propostas da Arábia Saudita, o FC Porto olhava para o valor chorudo que poderia encaixar, mas o negócio não foi avante. O Al-Ittihad oferecera 63 milhões de euros, um valor bem mais convidativo, mas que a SAD declinou na altura.
Farioli não tinha mais de dois meses de FC Porto, mas Mora já identificava que o caminho da titularidade estaria limitado pelas ideias do técnico, fiel ao 4x3x3, a um meio-campo coeso, intenso e a desequilibradores vertiginosos nos corredores. Mora fez 44 jogos, 21 deles a titular. Destes, 14 aconteceram no campeonato, mais de um terço da prova, embora tenha sido mais regular no onze na rotação feita para a fase inicial da Liga Europa.
Desde janeiro deste ano, fez dez jogos no onze e apenas um completo. O ingresso de Oskar Pietuszewski foi nova amostra de que Farioli procurava desequilíbrios nos corredores e Mora, que nunca foi opção principal no meio-campo, ficou ainda com menos espaço a partir das faixas.
Certo é que Farioli foi campeão, os dragões dominaram a Liga e, por isso, o italiano teve perfeita legitimidade para tomar decisões neste verão junto da Direção, embora para o presidente André Villas-Boas a situação de Mora se tenha tornado difícil de gerir, até porque a bancada confiava no talento do jovem para emergir e resolver jogos.
“Vai valer muito mais do que agora”
O DN tentou perceber junto do antigo coordenador da formação do Sporting, Luís Martins, as razões que levaram Farioli a preterir Mora em várias alturas. “É difícil sair da matriz do FC Porto, que é de apelar sempre a um perfil de jogador combativo. Devia haver um modelo de jogo adotado para a equipa profissional, que não fosse apenas a ideia pura e dura do treinador. Nesse modelo contemplam-se adaptações. Farioli tem muitos pontos fortes para conseguir chegar ao FC Porto e retirar o clube de uma certa letargia, mas Mora vai ser sempre um ponto fraco do treinador”, refere Martins, perspetivando, de seguida, com a sua experiência a observar jovens jogadores: “Mora vai valer muito mais do que agora, porque vai confirmar o seu talento.”
No entender do também antigo treinador do Sporting B, “não há qualquer razão para que se possa dizer que com Mora no onze o FC Porto teve menor rendimento”, vendo adaptabilidade no jogador para ser “um médio- centro criativo num 4x3x3”, seja a “8” ou a “10” ou até “a partir de um lugar encostado nas alas”. “Na minha opinião, o treinador deve organizar os melhores 11 jogadores compatíveis que tem e Mora teria capacidade para estar nesse lote”, afirma, elogioso com o jogador, considerando que o natural de Matosinhos “deveria ter tido a oportunidade de provar que pertence ao melhor onze” e que “ajudou o FC Porto de Anselmi a não ter um descalabro ainda maior.”
“Gosto de ter protagonistas, de fazer com que os solistas, cada vez mais raros, sobressaiam. Farioli prefere não ter estrelas. Enquanto estiver presente o que aconteceu no Ajax [perdeu o avanço que tinha na luta pelo título nas últimas jornadas], isso não vai mudar”, atira, sobre o técnico italiano. Olhando à convicção de Farioli, Martins considera “natural que o jogador queira sair e que o FC Porto queira vender.”
Luís Martins recua até aos tempos de rival direto na formação para lamentar a falta de aposta nos jovens. “Na anterior administração, o FC Porto não tinha a matriz de apostar em jovens talentos, estava mais focado em comprar fora do que acompanhar e ter paciência. Com Villas-Boas isso não se inverteu”, explana Luís Martins, lembrando que, vindos dos escalões de formação portistas, só Diogo Costa foi “emergente”, enquanto “Fábio Vieira e Vitinha saíram cedo demais” e “só apareceram por limitações na construção do plantel por questões de fair-play financeiro”. “Comparo muito Mora a Vitinha, podia valer muito mais”, destaca quanto ao bicampeão europeu pelo Paris SG, que fez 12 jogos pelos dragões, saiu por empréstimo para o Wolverhampton, fazendo depois uma época com título nacional e 47 jogos pelos azuis e brancos antes de render 42 milhões de euros com a venda aos franceses. Lembra ainda o caso do avançado André Silva, que agora volta ao clube, aos 30 anos, e que jogou ano e meio na equipa principal saindo, em 2017, por 38 milhões de euros para o AC Milan.
Álvaro Magalhães entende que “há muito talento em Mora” e que “se o desenvolver, melhorando a intensidade e taticamente”, será importante na Seleção Nacional no futuro. Por outro lado, o ex-técnico do Gil Vicente e ex-jogador do Benfica, aponta a posição onde Mora poderá ter melhor desempenho: “É atrás do avançado que pode render mais, precisa de um duplo pivô no meio-campo para poder ter mais liberdade. Encostá-lo à faixa é matá-lo”.
Recuando aos tempos de adjunto no Benfica, lembra que convenceu Giovanni Trapattoni a apostar em Manuel Fernandes, vindo da formação encarnada. “Tinha técnica acima da média, muita intensidade e muita humildade”, vinca, fazendo o paralelismo para Mora. No entanto, deteta falhas ao agora jogador da Roma. “Não penalizo Farioli nem a administração. Teve oportunidades de jogo. Tem características próprias que não se adaptam ao esquema tático, mas falta agressividade. Tem de ser diferente. Não chega ter talento, é preciso mais para jogar numa equipa que luta por títulos. Mesmo a segundo avançado tem de saber e estar disponível para defender. Pode ter-lhe feito mal ouvir tantos elogios tão jovem”, concretiza Álvaro Magalhães, discordando de Luís Martins: “É o jogador que tem de se adaptar ao treinador.”
Avançado e lateral esquerdo estão para chegar
A prioridade da SAD era fazer um encaixe financeiro significativo. Os interessados por Diogo Costa não avançaram propostas concretas e há a intenção de com a verba recebida por Mora dar um último retoque no plantel. Santiago Giménez, 25 anos, é um dos desejos para o ataque. O dianteiro mexicano chegou a ser um dos principais alvos do Benfica quando representava o Feyenoord. Fez 65 golos em 105 jogos e estava à frente de Pavlidis para a estrutura encarnada, mas o Feyenoord recusou facilitar a saída. O FC Porto está atento a esse dossier, mas também persegue um lateral-esquerdo (Nuno Tavares, da Lázio e ex-Benfica, é um dos referenciados). Recorde-se que o campeão nacional investiu, para já, 23 milhões de euros, tendo os maiores valores sido aplicados no exercício da opção de compra do defesa polaco Kiwior e na contratação do médio internacional sul-coreano In-beom Hwang (ex-Feyenoord).